Ingresso da mulher na Marinha do Brasil completa 30 anos

julho 25th, 2010 § 12

No dia 7 de julho, a Marinha do Brasil (MB) comemora 30 anos de ingresso da mulher nas carreiras de Praças e Oficiais. A decisão pioneira foi tomada pelo então Ministro da Marinha, Almirante-de-Esquadra Maximiniano Eduardo da Silva, pelo intermédio da Lei nº 6807/80.
Um dos motivos que levaram à seleção da primeira turma de oficiais, em 1981, foi a necessidade de
suprir, com mão-de-obra especializada, o então recém-inaugurado Hospital Naval Marcílio Dias. O começo foi com a criação do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM). Somente na segunda metade dos anos 1990, após dez anos da criação do CAFRM, a MB, a exemplo de outras Marinhas mundiais, assimilou a presença de mulheres militares em seus Corpos e Quadros de carreira, não visualizando mais a necessidade de uma carreira destinada somente ao gênero feminino.
Inicialmente, a primeira turma de mulheres teve seu primeiro treinamento profissional-militar com
militares da própria MB, com o apoio de policiais militares femininos de São Paulo. Somente a partir da quinta turma é que o treinamento passou a ser unificado com os homens. O uniforme também
passou por mudanças, sendo o primeiro uniforme especialmente formulado para as primeiras integrantes do CAFRM, tinha cor distinta dos uniformes masculinos, azul claro e atentando para o detalhe dos brincos serem padronizados. Os sapatos foram inspirados nos das policiais militares de São Paulo, de cadarço para dar estabilidade nos deslocamentos de marcha.
Em entrevista realizada por e-mail, a CMG(T) Sandra Lúcia Ferreira da Camara Chaves, da primeira turma e a mais antiga Assistente Social na ativa, hoje como Assessora de Serviços Sociais do Centro Tecnológico da Marinha de São Paulo (CTMP), revela ao Noticiário de Bordo como foi a sua experiência ao ingressar na MB.
Noticiário de Bordo – A Marinha foi a primeira Força a admitir mulheres. Como foi fazer parte da
primeira turma de formandas mulheres da Marinha do Brasil?
CMG(T) Sandra Lúcia – Com certeza foi uma atitude de coragem, de querer participar de um momento de transformação de cultura, relativa ao processo de inserção da mulher nos mais diversos campos de ação profissional.
NBQuais as dificuldades encontradas e como a senhora conseguiu superá-las?
CMG(T) Sandra Lúcia – A dificuldade inicial foi o afastamento do convívio familiar, por longo período, pois eu morava em São Paulo. Porém, foi rapidamente superada em função do espírito de corpo que contaminou o grupo de 200 mulheres que chegaram de diferentes regiões do país, com diferentes formações profissionais e vivências culturais, predominantemente da área da Saúde, com o apoio daquelas que eram oriundas do Rio de Janeiro. O período de adaptação foi fundamental, não só pela absorção dos novos conceitos e práticas, mas para alicerçar o sentimento de Família Naval e o compromisso com a missão da MB.
NBSempre foi um sonho fazer parte da Marinha? Como surgiu o interesse?
CMG(T) Sandra Lúcia – A visão que, até então, eu tinha da Marinha era aquela romântica associada
a filmes musicais, dos transatlânticos, mas também a dos navios mercantes, no Porto de Santos. Especificamente da MB, eu tinha uma imagem muito ligada à Amazônia, integração nacional e em especial da defesa do nosso mar territorial.
No ano da criação do Corpo Auxiliar Feminino, 1980, eu estava cursando o último ano da Faculdade de Ser viço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), o que me dava direito à inscrição no processo seletivo para ingresso na primeira turma de mulheres da MB, fato que foi bastante divulgado na imprensa. Assim, imbuída do espírito de transfor mação e crente na verdadeira contribuição da mulher, com toda sua especificidade, nos mais diversos e distantes campos de atuação, me lancei na aventura, sem volta, e me sinto orgulhosa por poder comemorar, na ativa, os 30 anos de ingresso da mulher na MB.
Eu começaria tudo outra vez!
NB - Qual a importância da Assistência Social para a Família Naval? A senhora pode traçar uma
evolução desta área a partir do ingresso da mulher na MB?
CMG(T) Sandra Lúcia – Podemos afirmar que a Assistência Social não foi inventada ela sempre existiu. Há notícias de ações assistenciais desde o tempo do Império e início do século XX, voltada para militares. Como todos sabemos, a Assistência Social na MB, de forma mais sistematizada, remonta aos idos de 1946, simultaneamente com o processo de profissionalização do Serviço Social no Brasil, sofrendo inúmeras reestruturações ao logo do tempo, até a atualmente conhecida, que vem se consagrando no entendimento do homem como ser uno, integral e integrado, no sentido da busca do almejado bem-estar social.
Ingressei na MB, que já contava em seus quadros de pessoal civil com mulheres assistentes sociais em diferentes campos de atuação, sob a égide do então Serviço de Assistência Social da Marinha. Éramos três assistentes sociais militares iniciando atividades na MB, em 1981. Sem sombra de dúvida, a nova geração, par a par com a evolução da profissão, dos conceitos e práticas pertinentes ao social, contribuiu sobremaneira para a evolução no trato da questão social.
NB - O que ainda pode ser feito para melhorar as condições sociais da Família Naval?
CMG(T) Sandra Lúcia – O enfrentamento das questões sociais de forma sistematizada pode dar origem a novos tipos de ações, a exemplo do que ocorreu com o auxilio invalidez decretado em 1969, decorrente de um processo contextualizado que incluiu a assistência aos militares inválidos em asilo, inclusive às suas esposas e à diária de asilado.
Muito há o que se fazer a partir do fortalecimento dos princípios de integração, descentralização,
capacitação, prevenção e humanização. Tudo isso nos leva à criação de um novo paradigma, ao uso de novas metodologias, mas sempre com a atenção voltada aos processos vivenciados pelo militar, seus dependentes, enfim à Família Naval e suas demandas por qualidade de vida no ambiente institucional, familiar e comunitário.

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